quinta-feira, 27 de junho de 2013

CENTENÁRIO DE UMA AURORENSE.


Maria Torquato Gonçalves (*)




     Aos 29 de dezembro de 1913 via a luz do dia, no sítio Jitirana, Maria Torquato Gonçalves, filha de José Gonçalves Ferreira Júnior (aurorense, ex-professor público nos sítios Pau Branco e Jitirana) e Júlia Umbelina Gonçalves (de Várzea Alegre). Era neta paterna dos também aurorenses Torquato Gonçalves Ferreira e Bárbara Maria de Jesus. Foi batizada na Igreja Paroquial de Aurora aos 23 de janeiro de 1914 pelo Pe. Vicente Bezerra, tendo como padrinhos a Félix Ferreira da Silva e Bárbara Maria de Macêdo (Livro de Registro de Batismos da Paróquia do Senhor Menino Deus de Aurora, 1910-1915, p.121). 

    Casou-se em 1934, com Antônio Lôbo de Macêdo (Lôbo Manso), poeta e político lavrense, morador do sítio Calabaço naquele município. Desse enlace, surgiram onze filhos, e dentre estes, Joaquim Lôbo de Macêdo (Joaryvar Macêdo), Professor, Historiador, Genealogista, ex-secretário de Cultura do Estado do Ceará no Governo Gonzaga Mota. Sobre Joaryvar Macêdo, afirmam vários historiadores, ter sido o mais abalizado pesquisador e historiógrafo nascido no Sul do Ceará. 

    Deve o município de Aurora, terra natal da mãe do referido estudioso, a primeira tentativa séria de elucidação de sua história, divulgada primordialmente em novembro de 1983, durante palestra proferida no auditório da Associação Beneficente Aurorense (ABA), nos ensejos comemorativos ao primeiro centenário de criação da comuna. 


(*) Foto: dimasmacedo.blogspot.com





sexta-feira, 10 de maio de 2013

CONSIDERAÇÕES SOBRE ISAÍAS ARRUDA, O MENINO CORONEL DOS SERTÕES.

Por: João Tavares Calixto Jr.

Isaías Arruda de Figueiredo.

     Nasceu Isaías Arruda de Figueiredo (Cel. Isaías Arruda) aos 6 de julho de 1899 na Vila d'Aurora. Era filho de Manoel Antônio de Figueiredo de Arruda e Maria Josefa da Conceição (naturais de Aurora, casados aos 30 de junho de 1896). (Livro de Registro de Matrimônios da Paróquia Menino Deus, 1896-1911, p.33).
     Foi batizado aos 30 de julho do mesmo ano pelo Pe. João Carlos Augusto, tendo como padrinhos Antônio Leite de Oliveira (solteiro) e Maria Joaquina da Conceição (casada). (Livro de Registro de Batismos da Paróquia do Menino Deus de Aurora, 1897-1904, p. 80),
     Convolou núpcias no primeiro dia de setembro de 1920 na Igreja Paroquial da Vila d’Aurora com Estelita Silva, natural de Fortaleza, tendo como testemunhos a Raimundo Antônio de Macêdo e Manoel Gonçalves de Araújo. (Livro de Registro de Matrimônios, Paróquia do Senhor Menino Deus de Aurora, 1909-1922, p. 177).
     Em seu registro de habilitação de casamento civil, anotado pelo Tabelião José do Valle Júnior aos 15 de agosto de 1920, observam-se informações sobre sua esposa: Era filha adotiva do Tenente Manoel Gonçalves de Araújo, e estava sob sua guarda a seis anos. Era, entretanto, filha natural de Francisco Saturnino da Silva, residente em Fortaleza, e Idalina Silva, já falecida. Casaram-se civilmente os contranubentes, igualmente ao matrimônio da Igreja, no dia primeiro de setembro de 1920, às dezessete horas, na casa de Zabulon da Silva Câmara Filho (CALIXTO JÚNIOR, J. T. Venda Grande d'Aurora, Fortaleza, 2012).

 Autos dos proclames do casamento civil de Isaías Arruda de Figueiredo e Estelita Silva (Cartório da Vila d'Aurora, 1920. Fonte: Arquivo Público do Estado do Ceará)

     Em perfeita consonância com a práxis vigente de sua época de existência, inseriu-se Isaías Arruda na prepotente atuação sociopolítica regional, marcada pela incursão do poder privado dos coronéis. Eram estes os senhores supremos dos feudos nordestinos, detentores do voto do cabresto e responsáveis pelas famosas eleições a bico de pena, onde até defuntos votavam. Trapaças e moléstias sociais que hoje ainda remanescem, apesar de diminuídas as proporções, são oriundas deste famigerado tempo da República dos Coronéis ou Coronelismo, a chamada República Velha.  

     Bosquejando sobre as passagens deste notável personagem do cenário coronelístico nordestino, delegado de polícia em Aurora, assim como Prefeito municipal de Missão Velha, transcrevemos o que exara Joaryvar Macêdo em Império do Bacamarte (Fortaleza, 1990, p. 225): "Improvisado o coronel Isaías Arruda em poderoso chefe político de Missão Velha, se o juiz não se submetesse às suas ordens, ele o escorraçava, e ao oficial de polícia, intolerante com os desregramentos, mandava assassinar".

 Casa de Isaías Arruda em Missão Velha, CE (Foto: lampiaoaceso.blogspot.com)

     Algo depois de funestos episódios que lhe marcaram a curta vida, polêmica e tumultuada, ocorreu-lhe o assassinato aos 4 de agosto de 1928, na pedra da Estação de Trem de Aurora, vindo a falecer 4 dias depois. No Livro de Registros de Óbitos da Paróquia de São José de Missão Velha (1926-1930, p.136), deparamo-nos com o assento referente ao seu falecimento:
 
     "Aos oito dias do mês de agosto de mil novecentos e vinte e oito, na sede da Freguesia de Aurora, foi assassinado Isaias Arruda com vinte e oito anos de idade, casado com Estelita Arruda. Seu corpo foi sepultado nesta Villa. Para constar mandei lavrar este assento que assino. O Vigário Horácio Teixeira".

     Da calçada, onde caíra baleado, Isaías foi transportado para a residência de Augusto Jucá. No dia seguinte foi assistido pelos médicos Antenor Cavalcante e Sérgio Banhos, mas estes pouco puderam fazer no sentido de salvar a vida de Isaías, que terminou falecendo no dia 8 de agosto, pelas 6 horas da manhã (...). (GONÇALVES, Amarílio Tavares. Aurora, História e Folclore, Fortaleza, 1993, p.131).

Estação Ferroviária de Aurora, onde Isaías foi assassinado pelos irmãos Paulinos em 1928.

     Salienta-se que no dia 12 de agosto do mesmo ano, regressava de Aurora a Fortaleza, o Delegado Virgílio Gomes, que havia sido incumbido de instaurar inquérito sobre o assassinato de Isaías. A respeito, foi provocado por vingança à morte de João Paulino, o chefe dos irmãos Paulinos, família de espírito de luta aguerrido, que, por anos consecutivos, fizeram do município de Aurora, assim como de suas cercanias, aterrorizado. Era estrondosa a rixa entre os seus integrantes e os "Arrudas", de Isaías Arruda de Figueiredo.

Grupo armado de Isaías Arruda (Foto: cariricangaco.blogspot.com) 

Referências Bibliográficas:
CALIXTO JÚNIOR, J. T. Venda Grande d'Aurora. Expressão Gráfica, Fortaleza, 2012.
FATOS HISTÓRICOS - Portal da História do Ceará, IN: www.ceara.pro.br-menuhistoriaverbete,php
GONÇALVES, A. T. Aurora, História e Folclore. IOCE, Fortaleza, 1993.
MACEDO, J. Império do Bacamarte. Casa José de Alencar, UFC. Fortaleza, 1990. 
 

sábado, 4 de maio de 2013

TAVARES, MEDEIROS, LUNAS E GRANGEIROS...

Por: João Tavares Calixto Júnior.


     1896. Em dia deste ano chega ao sítio Tipi, em Aurora, Salustiano Grangeiro de Luna, que passaria a atender, à frente do tempo, por Dom Joaquim, Prior e Abade Superior do Mosteiro de São Bento do Rio de Janeiro.
     Nascido aos 8 de junho de 1881 no sítio Logradouro em Missão Velha, Ceará, era filho do segundo casamento de Manoel Felipe de Luna Alencar, com Raimunda Clara do Amor Divino Grangeiro. Esteve de 1893 a 1895, empregado como caixeiro num pequeno estabelecimento de fazendas, secos e molhados na vila de Missão Velha, antes de mudar-se para o sítio Tipi em Aurora, mais precisamente no sítio Salgadinho, a fim de ensinar as primeiras letras e liturgias aos filhos de seu irmão Antônio de Luna Alencar.
     Regressa a Missão Velha no final de 1896, em decorrência do falecimento de seu pai, e já no ano próximo, exatamente aos 14 de outubro de 1897, conseguira emprego na Casa Sampaio e Irmãos, em Barbalha, o maior empório comercial do Cariri, à época. Paralelamente ao trabalho desenvolvido na empresa barbalhense, frequenta as salas de aula da Escola Noturna mantida pelo Gabinete de Leitura de Barbalha, já então existente e guiado pelo notável professor José Joaquim Teles Marrocos, o mesmo que em 1901, redigiu carta ao mosteiro de São Bento informando das pretensões de Salustiano em ser admitido na Ordem.
     Causa espanto em todo o Cariri, sendo já vastamente conhecido por ilibada reputação, a decisão de tornar-se monge, mudando-se para Salvador no final de fevereiro de 1902, a fim de inserir-se no mosteiro da Bahia, onde, aos 20 de março do mesmo ano, recebe o hábito de postulante. Chega ao mosteiro de São Bento do Rio de Janeiro aos 23 de junho de 1903, e aos 11 de julho é admitido ao noviciado. Torna-se professo como monge de coro aos 31 de julho de 1904, recebendo a primeira tonsura em 6 de janeiro de 1906. Por ser a profissão simples perpétua, recebeu, no decorrer do curso de filosofia, as quatro ordens menores: a primeira em 17 de junho de 1905 e a segunda em 1 de novembro de 1905. A terceira recebeu aos 22 de dezembro de 1905 e a quarta, aos 16 de março de 1907. Recebe o subdiaconato aos 21 de dezembro de 1907 (na Capela da Tijuca), o diaconato aos 19 de dezembro de 1908, e o Presbiterato aos 4 de janeiro de 1910, sendo todas as ordens sacras, conferidas por Dom Gerardo Van Caloen, Abade do mosteiro de São Bento. Celebou a primeira missa no altar-mor da Abadia, às nove horas da manhã, do dia 6 de janeiro de 1910, na festa dos Reis.
     Foi Prior da Abadia de São Bento e Abade Superior do Mosteiro Beneditino. Foi historiador e tradutor, tendo sido membro correspondente do Instituto do Ceará. Publicou: Lirios Eucaristicos (1934 e 1939, duas séries); Os Monges Beneditinos no Brasil e Os Monges Beneditinos no Ceará (1953).
     Em Um Menino Caipira que se fez Monge – Notas sobre o Tio Monge (Missão Velha, 1979, p.5-28), discorre sobre ele o Pe. Francisco de Luna Tavares, seu sobrinho: "Encaminhou pessoalmente diversos jovens cearenses, sobretudo da Paróquia de Aurora, para a Escola Claustral, dos quais três ou quatro perseveraram em sua vocação. (...) nos últimos anos de seu Priorado, temendo a falta de perseverança de alguns ou por outro motivo justo, deixou de atender a alguns pedidos que daqui partiam. Eu mesmo por esta razão não me fiz também monge beneditino. (...) Amicíssimo do Pe. Cícero Romão Batista do qual fora colega no seminário de Fortaleza onde fizera todo o curso de teologia e recebera o diaconato, jamais comentou perante os alunos os fatos do Juazeiro relativos ao Pe. Cícero e à beata Maria de Araújo (...) Houve um incidente no mesmo ano de sua ordenação que o imortalizou não só entre os co-irmãos, mas o colocou nas páginas de nossa história pátria. Foi na revolta dos Fuzileiros Navais, chamada revolta da Chibata, em dezembro de 1910 (...)".
 
     Morreu como viveu. Talvez ao toque da sineta para o Ofício das Matinas, às 4 horas da manhã do dia 22 de novembro de 1969, levantando-se como de costume, sendo encontrado morto à soleira de sua cela de monge, no velho Mosteiro do Rio, onde havia se consagrado 65 anos antes.

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     Ocorria aos 5 dias de julho de 1909, o falecimento de Joanna de Jesus Tavares, filha do Alferes João Luiz Tavares, e esposa de Antônio de Luna Alencar, pioneiros do Sítio Salgadinho em Aurora. Atenta-se que deste casal, procedem os Luna Alencar e grande parte dos Tavares Luna, Luna Benício e Marinho de Aurora e região. Foram seus filhos, todos nascidos e residentes no Salgadinho:

1 – João de Luna Alencar (casado com Júlia Rangel de Luna);

2 – José de Luna Alencar (casado com Maria Benício de Luna);

3 – Manoel de Luna Alencar (casado com Vicência Benício de Oliveira);

4 – Anna Anunciada de Luna (casada com Alfredo Benício de Oliveira);

5 – Raimundo de Luna Alencar (casado com Maria Tavares de Luna);

6 – Maria Luiza de Luna (casada duas vezes, sendo a primeira com Joaquim Batista de Luna);

7 – Lídia Joanna de Jesus ou Lídia Joana de Luna (casada com Vicente Tavares de Medeiros);

8 – Luiz de Luna Alencar (casado a primeira vez com Ana Tavares de Luna e a segunda com Maria Tavares de Luna – Mariquinha);

9 – Domingos de Luna Alencar (casado com Lica Carneiro de Aquino);

10 – Esperança de Luna Alencar – ou Esperança Joana de Luna (casada com João Marinho de Luna);

11 – Maria Concebida de Luna (casada com Francisco Marinho de Luna – Chiquinho de Luna).
(Autos de Inventário de Joanna de Jesus Tavares, 1912, processo 4, p.4-5).


     Os velhos aurorenses, mais em dia com os acontecimentos da terra, informam ter conhecido a fama atribuída ao referido Antônio de Luna Alencar, Toinho de Luna, como era mais conhecido, desbravador primevo do Salgadinho, no sítio Muquém, na região do Tipi. Ao edificar engenhoca de rapadura, tornou-se popular, não tão somente pela produção dos derivados da cana, mas ainda, pelo carisma que lhe era peculiar, assim como pelos dotes de curandeiro que carregava. A despeito de tudo, viveu Toinho de Luna a sua vida, e teve seus incontestáveis méritos.
     Era filho do primeiro casamento de Manoel Felipe de Luna Alencar, com Ana Tavares Simões. Deste primeiro enlace, além de Toinho de Luna, foi pai o referido Manoel Felipe, de Vicente de Luna Alencar, Caetana de Luna Alencar, Pedro Tavares de Luna e Maria Luzia Tavares de Luna. De seu segundo matrimônio, com Raimunda Clara do Amor Divino Grangeiro, foi pai do já citado Salustiano Grangeiro de Luna (Dom Joaquim), José Grangeiro de Luna (falecido inupto), Antônia Grangeiro de Luna e Ana Grangeiro de Luna (Santana), casada com Agostinho Tavares de Medeiros, irmão do já apontado Manoel Tavares de Medeiros (Nezinho do Tipi). Acrescentamos terem sido, conjuntamente os referidos, ancestrais dos que hoje carregam os genes dos Grangeiro de Luna, Luna Benício, Tavares Luna, Tavares Medeiros, Luna Tavares, Luna Marinho e Luna Alencar, espalhados por Aurora e região.
 
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1920 (21 de setembro) – É deste dia o nascimento de Francisco de Luna Tavares (Padre Luna), filho de Agostinho Tavares de Medeiros e Ana Grangeiro de Luna (Santana).


 
     Natural de Abaiara, à época município de Milagres, foi ordenado sacerdote no quarto dia do mês de dezembro de 1949, no seminário da Prainha, em Fortaleza. Recebeu sua primeira Paróquia na cidade de Parambu, Ceará, onde permaneceu por dois anos. Mudou-se em seguida para Iguatu, Ceará, onde foi Vigário Coadjutor, e de lá para o Crato, onde exerceu várias funções no Seminário Episcopal, inclusive, o cargo de Professor.
     Chega ao município de Aurora aos 2 de fevereiro de 1953, recebendo a Paróquia em virtude do falecimento do Monsenhor Vicente Bezerra. Permaneceu em terras aurorenses por mais de 18 anos, antes de mudar-se para Missão Velha, onde vicariou a Paróquia de São José até o seu trespasse, ocorrido em face de acidente automobilístico (caminhão) junto a seu sobrinho Raimundo Grangeiro de Luna (Duca) aos 7 de fevereiro de 1980.
     Deixou registrado no Livro de Tombo da Freguesia do Menino Deus de Aurora a relação das alfaias encontradas por ele ao tomar posse, em 1953:
 

"Na Igreja Matriz: um relógio na torre; dois sinos, sendo um histórico; um harmônico francês; um sacrário de metal embutido; um sacrário de madeira; duas custódias; duas âmbulas; dois cálices sendo um de prata; o cálice de prata do Pe. Vicente. paramentos: dourados, vermelhos, roxos, pretos, brancos, todos porém muito estragados com exceção de um vermelho, um branco e um preto mais novos. Umas cinco ou seis alvas velhas, algumas tralhas de linho, vários corporais, sanguinhos, manustérgios e palas. Singelos dois pares de galhetas. Uma estante de metal para missal. Três estantes de madeira. Três jogos de bacias. Uma cômoda de madeira. Um missal romano novo e dois velhos. Um missal de defuntos novo e um velho. Uma bandeja de comunhão. Um trono para exposição. Três pedras d’ara. Um púlpito, dois genuflexórios velhos, dois confessionários velhos, alguns bancos velhos quebrados, duas banquetas de metal sendo uma nova, dois turíbulos de metal, uma cruz de metal, duas lanternas e algumas tochas da irmandade. Um pálio, uma capa de asperges branca, um preta e uma roxa. Três estolas paroquiais e uma preta. Dois vasos para santos óleos. Um relicário para o viático".
"Nas Capelas: Iara: Uma casa paroquial velha, Dois sinos, Um cálice de metal dourado, Uma custódia, Uma âmbula, Um harmônio nacional, Uma cômoda de madeira  Paramentos: Um dourado, um vermelho, um verde e um preto, Uma capa de asperges com véu de ombro, Duas alvas velhas, Dois rouquetes, Duas estolas, Duas pedras d’ara Um sacrário de madeira, Um turíbulo velho, Algumas toalhas de linho para os altares Um genuflexório, uma mesinha de cimento armado para o batistério, Seis castiçais de madeira grandes e seis pequenos, alguns jarros de vidro para flores, Dois missais sendo um novo, Um par de galhetas, Uma bandeja de comunhão, Uma campainha de metal, Uma estante de metal para o missal, Duas cômodas de madeira na sacristia".
 
     Dinâmico e profícuo defensor dos dogmas eclesiásticos deixou, dentre outras importantes contribuições em Aurora, o prédio da atual casa paroquial, executada por ele, assim como a Casa São Vicente de Paulo, na Rua Santa Maria e o Colégio Paroquial Menino Deus, um dos mais importantes educandários de Aurora e região, resistente ainda aos dias atuais.



Referências Bibliográficas:
Autos de Inventário de Joanna de Jesus Tavares (Processo 4, p.4-5, 1912, In: Arquivo Público do Estado do Ceará, Fortaleza).
CALIXTO JÚNIOR, João Tavares. Venda Grande d'Aurora. Expressão Gráfica, Fortaleza, 2012.
TAVARES, Francisco Luna (Pe.). Um Menino Caipira que se fez Monge – Notas sobre o Tio Monge Missão Velha, 1979.

 

sábado, 13 de abril de 2013

AS MINAS DE SÃO JOSÉ DE AURORA DO PADRE CÍCERO - PARTE I.

Por: João Tavares Calixto Júnior.
 
  
 
     Realizado em 31 de janeiro de 1918, registro de documento pertencente ao Padre Cícero Romão Batista a respeito da Jazida Cuprífera da Zaíra antigamente denominada Coxá, encravada em parte no município de Aurora. Foi a invenção assentada no Termo do Jardim, em livro competente, sendo transcrito pelo Juiz de Direito de Jardim ao Ministro da Aviação, secção de Minas, conforme Art. 2º do Decreto Federal de 6 de janeiro de 1915. Eis integralmente a reprodução da escritura:
 
"A fazenda Cuprífera acha-se na Fazenda Zaíra, antigamente denominada Coxá ou Riacho Seco. Um terço da Fazenda pertence juridicamente ao município de Aurora e os outros dois ao de Milagres, deste termo de Jardim, no Estado do Ceará, a distância de Zaíra a Aurora é de 12 Kilômetros. A Estação Ferroviária mais próxima é a de Aurora. O riacho que refrigera a fazenda é o Riacho Seco. Este corre do oeste a leste e faz barra no riacho das Antas, afluente do rio Salgado que deságua no rio Jaguaribe. Em junho de 1903 extraí e levei da cidade do Crato, 1.125 kilos de mineral escolhidos e num forno de manga para tratar ferro pertencente ao ferreiro hoje falecido Antônio Fernandes da Silva. Fundi o aludido material, obtendo 23,3 por cento de matta e 98 por cento. Em outra experiência no crisol, um kilo deu 21,6 por cento. Ou seja, para as duas experiências uma média de 22,45. desta matta moldei umas barrinhas que mandei de amostra a várias casas estrangeiras. O processo que segui foi o seguinte: 1º – Fundição no forno de manga de ferro. Este engasgou. 2º – Extração do cobre encontrado sob forma de pérolas da grossura duma cabeça de alfinete até a dum grão de uva, na ganga engasgada e quebrada a martelo. 3º – Nova fundição no crisol. 4º – Moldagem em lingote de dimensões 18 c x 3 c + 8 multímetros. Uma casa alemã tendo submetido uma dessas barras a ação da martelagem à frio na bigorna, tanto se admirou da perfeita maleabilidade sem quebradura alguma, que duvidou ter sido obtida essa mata em duas fundições únicas. A análise dessa mata deu: Cobre – 98; Ouro – 0,0005; Prata – 0,00175; Ferro e outros componentes – 1,982. A meia da porcentagem de toda a parte da jazida estudada até hoje é 7 por cento. Quando, em 1909, o Engenheiro Dr. Józimo Barroso em Comissão do Governo federal para estudo da estrada de ferro, passou em Milagres, tinha ele na viagem, quebrado uma de suas esporas de prata, tive o prazer de oferecer-lhe, para o seu conserto, um resto de prata que tinha eu obtido nas experiências do mineral da Zaíra. Depois de ter feito a fundição no forno de manga do Crato, parti para a Zaíra a fim de proceder à prospecção necessária da jazida. Dediquei-me exclusivamente e sem auxílio alheio a esse serviço e com o pessoal e material preciso, durante dez meses, de setembro de 1903 ao fim de junho de 1904. Tendo remetido a Paris, mineral e matta, Aí organizei um sindicato de capital inicial de sete milhões de francos. No começo de julho de 1909, o Revmo. Padre Cícero Romão Baptista, então maior possuidor da Zaíra e hoje, único proprietário da fazenda mineira, requereu a demarcação e divisão judicial da Zaíra. No dito mês recebi um telegrama do Engenheiro Francês Frochot, participando-me ter chegado no Recife com uma Comissão a mandado do Syndicato Parisiense. Então o convidei a vir entender-se comigo na Estação ferroviária mais próxima de Aurora".
 
 
 
"Miguel Calmom deixando o resto da Comissão e o material no Recife. Já com a divisão de Zaíra pelo facto, toda a duração de processo a propriedade ficava em litígio entregue à justiça e que por conseguinte, atualmente não se podia nela fazer estudos e pesquisas. Ambos achamos melhor a Comissão voltar á França até a conclusão. Quando meses depois, terminada a demarcação e divisão, julgada e a sentença homologada, por cabograma avisei ao Presidente do Syndicato. No começo de maio de 1910, este enviou de novo a Comissão. O chefe dela ainda foi o mesmo Dr. Frochot e, como sub-chefe, outro Engenheiro o Dr. Dubreton. Era acompanhado de um Chemist, um mestre de fundição e um pessoal prático como todo o material necessário. Acordamos o Dr. Frachot e eu, que nos encontraríamos no porto de Mossoró onde, antecipadamente, foram enviados o pessoal e o material. No dia da minha partida para o ponto combinado, foi-me entregue um telegrama a mim dirigido de Milagres, pelo qual o sub-chefe comunicava-me que o Dr. Frochot vinha de falecer vitima de febre amarela, na casa de Banhos onde, no Recife, se tinham hospedado. Então a comissão, privada do chefe, resolver voltar a Paris. A jazida cuprífera atravessa a Fazenda Zaíra do oeste a leste procurando ligeiramente o Sul. A largura da propriedade é de 7 k 9h e 20 m ou légua e meia de sesmaria. Os minerais encontrados na jazida são hidrocarbonetos, o chakopiryte. Existem vários afloramentos. Para a exploração, dever-se-á empregar o sistema misto, isto é, elaborar na mina mesmo o mineral de baixa porcentagem e simplesmente extrair e exportar diretamente o mineral rico. Deste modo economizar-se-ão onerosos fretes de pesos mortos. Conclusão – As observações obtidas dos estudos e prospectos são bastante animadoras e esperançosas para uma exploração prolongada e lucrativa. Conde Adolpho Van den Brule. Em seguida o lançamento de um documento escrito na língua francesa e a sua respectiva tradução: "Sociedades Francesas, Minas de carvão e meta lherzicas. Sociedade anônima d'exploração das minas de cobre d'Aurora (Brasil), em formação sobre ou conforme as leis francesas. Sede social em Paris, provisoriamente, 69, rua d'amsterdam. A sede social definitiva será designada a Paris pela Assembleia constitutiva. Duração: trinta anos. Capital social: 4 milhões de francos divididos em 8000 ações de 500 francos cada uma, inteiramente liberadas. A sociedade sendo ainda em formação, não teve lugar de estabelecer balanço. A sociedade tem por objetivo fazer valer as minas de cobre, sitas no Brasil, a Aurora (Estado do Ceará) e executar toda transação que possa, em tudo ou em parte, ligar-se-á realização de seu objeto. O Sr. Van den Brule, de Régis, em seu nome e como mandatário do Sr. Adolpho Van den Brule seu irmão, residente em Triumpho (Brasil), conforme uma procuração passada pelo Sr. Carneiro da Cunha, Tabelião no Recife (Brasil), no dia 25 de agosto de 1904, dito Sr. Adolpho Van den Brule, agindo tanto em seu nome pessoal, como sendo mandatário do R. P. Barboza de Menezes, residente em São Pedro (Caririaçu) (Brasil), conforme instrumento particular passado em Aurora (Brasil) no dia 2 de janeiro de 1904, entrega á Sociedade todos os direitos que estes têm sobre um grupo de minas de cobre sitas no Brasil no Estado do Ceará e compreendendo tudo ou parte das minas de São José da Aurora, Escondido, Taveira, Diamante, que são sitas nos municípios de Aurora e Milagres e que ocupam uma superfície total de 1.972 hectares 6 ares e 89 centiares e compreendendo: 1 – 1066 hectares ar. 45 cent. Do dito sítio São José de Aurora, cujos proprietários são o Sr. Adopho Van den Brule e o Rev. Pe. Augusto Barbosa de Menezes; 2 – 906 hec. 1 ar. 44 cent composta do sítio Escondido com 257 hect. 85 ar. 48 cent. Do sítio Taveira com 176 hect. 55 ar., e do sítio Diamante com 471 hect. 60 ar. 96 cent, nos quais o Sr. Adolpho Van den Brule e o Sr. R. P. Barboza de Menezes têm licença perpétua de exploração, contatos, acordos e convênios, especialmente com as autoridades locais, o Sr. Charles Descolles, entrega á Sociedade, os benefícios dos documentos que ele tem recolhido relativos às minas de Aurora, seus conhecimentos especiais em matéria de explorações minerais, como também o valor dos estudos, gastos, e diligências feitas por ele, em vista da constituição e bom funcionamento da Sociedade. Em indenização dessas entregas lhes é atribuído: a) um milhão de francos pagáveis em dinheiro logo a constituição da Sociedade; b) duas mil ações de 500 francos inteiramente liberadas; c) de uma participação de 10 por cento na segunda distribuição dos benefícios líquidos – os administradores terão direito a gratificação de presença, etc. a uma de 10 por cento na segunda distribuição dos benefícios líquidos - Os administradores terão direito a gratificação de presença, etc, a uma de 10 por cento na segunda distribuição dos benefícios líquidos – Assembleias Gerais – As convocações serão dirigidas oito dias antes por um aviso público no jornal de anúncios legais do departamento do Scine aviso resumido indicando a ordem do dia. O quarto do capital não sendo representado, uma nova reunião de Assembleia será convocada do mesmo modo. As assembleias constitutivas, serão convocadas por cartas dirigidas, para a primeira, dois dias antes, para a segunda, cinco dias antes. As assembleias terão lugar na rede social, (em Paris), Charles, Descolle" - Declaração do proprietário Revdo. Pe. Cícero Romão Baptista - "Hoje todas as terras das minas de São José de Aurora são minhas por compras legais, de forma que serão entregues à Sociedade pelo proprietário e pelo Conde Adolpho Van den Brule. O grupo de minas de São José de Aurora, antigamente chamado Riacho Seco, depois Coxá, depois São José de Aurora, desde 1910, foi denominado Zaíra".
 
 

quinta-feira, 28 de março de 2013

CÍCERO HENRIQUE BRASILEIRO: FILHO DE AURORA, PAI DE BAIXIO.

Por: João Tavares Calixto Júnior.
Cícero Henrique Brasileiro
 
     Nasceu Cícero Henrique Brasileiro no sítio Malhada Funda em Aurora aos 28 de novembro de 1896. Conforme o que consta em seu assento de batismo, registrado pelo Pe. Vicente Pinto Teixeira aos 28 de fevereiro de 1897 no Livro da Paróquia do Menino Deus de Aurora (Livro 1888-1897, pág. 128), era filho legítimo de Joaquim Henrique d'Oliveira e Maria Esperança da Trindade. Foram seus padrinhos, seu tio paterno José Joaquim Brasileiro e sua esposa, Maria Horinda da Conceição.
     Recebeu as primeiras letras com professores particulares em sua terra natal, tendo ido fixar residência em 1921 no povoado de Alagoinha (hoje Ipaumirim), de onde migrou ao povoado de Baixio, em 1923, onde instalou Indústria de algodão.
     Casou-se com Raimunda Lima Brasileiro, com quem teve quatro filhos: Dr. Líbio Lima Brasileiro (Dentista, assassinado em Baixio em virtude de divergências políticas), Hugo Lima Brasileiro, Líbia Lima Brasileiro e Ivone Lima Brasileiro.
     Aos 17 de junho de 1935 toma posse como Prefeito Municipal da Vila do Baixio, por ato de nomeação do Interventor Menezes Pimentel, tendo sido eleito à mesma, nas eleições de março de 1934. Atentemos ao que registra-se no documento de posse:
     "Aos dezessete dias do mês de junho de mil novecentos e trinta e cinco, nesta Vila de Baixio, Estado do Ceará, no Paço da Prefeitura Municipal, onde pelas treze horas se encontravam o cidadão Joaquim Leite Ribeiro, Prefeito anterior, Dr. Genésio Lustosa Cabral, Juiz Municipal, o Cel. João Augusto, Prefeito Municipal de Lavras, diversas pessoas gradas do lugar e o abaixo assinado, secretário da prefeitura, aí compareceu o Coronel Cícero Brasileiro, nomeado Prefeito deste Município por Ato de 29 do mês próximo findo, do Exmo. Sr. Dr. Governador Constitucional do Estado o qual exibiu o seu título de nomeação e tomou posse do cargo. Para constar, eu, Vicente Brasileiro, secretário da prefeitura, lavrei a presente em que assinam o prefeito anterior, o empossado e demais presentes".
     Em 26 de novembro de 1937 foi novamente nomeado Prefeito de Baixio, permanecendo até 7 de abril de 1938. Aos 22 de maio seguinte, foi lavrado o título de sua nomeação para provimento do cargo de tabelião do termo de Baixio. Posteriormente, em 9 de janeiro de 1946, foi nomeado Tabelião Único do termo de Baixio, comarca de Icó. Elegeu-se Prefeito de Baixo para o período de 1959-1963, e vice-prefeito nas eleições de 1982 (CALIXTO JÚNIOR, João Tavares. Venda Grande d'Aurora. Fortaleza, 2012, p. 268).
     Cícero Brasileiro construiu no município de Baixio, o antigo prédio da prefeitura municipal, em 1936, e o prédio da "Mesa de Renda" ou coletoria estadual. O primeiro, lamentavelmente, destruído em dias posteriores. Cícero liderou no município, a fundação do Partido Republicano Progressista, visando às eleições municipais de 29 de março de 1936. (GONÇALVES, Rejane Monteiro Augusto. Umari, Baixio, Ipaumirim – Subsídios para a História Política. Fortaleza, 1997. p. 62-66).
     Aposentando-se como Tabelião, cargo que desempenhou por muito tempo, foi batizado em sua homenagem o prédio da Prefeitura do Município de Baixio como Centro Administrativo Cícero Henrique Brasileiro, localizado no Centro da cidade.


Referências Bibliográficas:
 
CALIXTO JÚNIOR, João Tavares. Venda Grande d'Aurora. Fortaleza, Expressão Gráfica e Editora, 2012.
GONÇALVES, Rejane Monteiro Augusto. Umari, Baixio, Ipaumirim – Subsídios para a História Política. Fortaleza, 1997.

 

sábado, 9 de março de 2013

Notas à História Política de Lavras: Divergências no Período Oitocentista nas Páginas de "O Araripe".

Por: João Tavares Calixto Júnior.

Ildefonso Correia Lima

   O Jornalismo no interior da Província do Ceará surgiu com a publicação na metade do decênio de 1850, do impresso O Araripe (1855-1864), jornal de cunho liberal de grande notoriedade, redigido e publicado por João Brígido dos Santos, político e jornalista cratense. Segundo Nobre (2006), é considerado até hoje, uma das maiores expressões da referida atividade no Brasil, superando qualquer outro jornal cearense.
     Através das páginas de O Araripe, Brígido escreveu e publicou também documentos e apontamentos sobre fatos do passado, artigos sobre os homens e episódios ocorridos na zona meridional do Ceará (ALVES, 2010). Dentre estes fatos, alguns passados em Lavras da Mangabeira, à época, Vila das Lavras, mentoreada já pelo clã dos Augustos, hegemonia que perdurou por cerca de um século. 
     Ressaltemos aqui, sem prolegômenos, o que notícia o periódico cratense em 1857 (nº 37, p. 3), acerca de persistente querela entre o então Padre Luis Antônio Marques da Silva Guimarães (Padre Luis do Calabaço), e o então Delegado de Polícia local, Ildefonso Correia Lima, em nota publicada a pedido do referido sacerdote, endereçada ao Presidente da Província:
     "Não podendo eu soffrer a persiguição atrós, que me fez o delegado dessa Villa, Ildefonso Correia Lima, vou queixar-me a V. Exc. e o motivo passo a expôr. Não merecendo eu as simpathias desta authoridade, pelo simples facto de pertencer á opposição, tem este persiguido meos moradores com recrutamento, mandando escoltar os casados, que vivem em vida marital, os filhos unicos de lavradores, que tem isenção da lei, só com o fim de saciar odio, que contra mim tem, e muito mais aquelles que commigo votarão, dando isto lugar, Exm. Sr., a que andem foragidos pelo matto os meos trabalhadores, soffrendo assim a agricultura. V. Exc. conhece mui bem quanto esta industria tem deminuido com a falta dos escravos, e que indispensavelmente se fasem precisos braços livres, principalmente a mim, que trabalho em quatro sitios differentes, em cada um dos quaes já tenho engenho de moer canas, esforço este bastante pesado; e vivendo eu Exm. Sr. com meos moradores persiguidos da policia, que lucro tirarei e elles para manterem suas familias e pagar de disimo 300$ a 400$ rs. annuaes?"
     "Exm. Sr. a vida sedentaria, em que era occupado, como vigario desta freguesia, me tendo feito adquerir a molestia Diabetis, fui aconselhado pelos medicos a que viesse para o campo, afim de transpirar com o trabalho, e com licença do Rd. Visitador me acho no sítio Calabaça legoa e meia da Villa, onde me é preciso ter por meos moradores homens, que usão do trabalho ex vi de que tenho nelle um engenho alem dos tres outros ja mencionados, e nestas circustancias a policia só acha a elles para seos desabafos, mandando um individuo de nome João Francisco, meo desafecto cercar as suas casas à meia noite abrindo portas e entrando pelo interior das casas allumiando-as com fachos pelos quartos e assoalhos, que os camponeses costumão faser em suas cabanas para deposito de seos legumes: não respeitando mesmo as famílias em seos agasalhos, como as senhoras de casa e suas filhinhas môças. Entretanto a nada se move essa authoridade não respeitando nem a lei, que prohibe correr casas à noite, nem o sagrado das famílias."
     "Por tanto Exm. Sr., imploro a V. Exc. dê remedio a essas persiguições com que desde março não cessão de me faser todo o mal. Tudo provarei, se necessario for. Deos Guarde &. Engenho Calabaça, 26 de Janeiro de 1857. Illm. e Exm. Sr. Dr. Francisco Chavier Paes Barreto, Presidente da Província. O Vigário Luis Antônio Marques da Silva Guimarães.        
     
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     Frisemos, por ser relevante, a exposição do motivo exposto pelo Sacerdote Paraibano de residir no sítio Calabaço: Indicação médica de se "exercitar na roça", por ser vítima de diabetes. É verdadeiro, porém, que o levita residiu por muito tempo em um sobrado ainda hoje existente próximo à confluência do Riacho das Emas com o Riacho do Rosário, nas férteis terras de São Vicente das Lavras, onde desfrutou de vita marital, e foi pai de cinco filhos, o que consta nos autos de seu testamento. Poderia ter sido este, portanto, um motivo mais "intenso" de se morar no Calabaço e não na Casa Paroquial.
     Faziam-se evidentes as pendengas políticas entre o Padre e o então delegado de Lavras, Ildefonso Correia Lima, um colecionador de adversários, esposo da lendária Fideralina Augusto, o que podia ser constatado em outros noticiários da época. Admitindo-se o predito, atentemos ao que comenta O Araripe em correspondência redigida por "O Lavrense" de 12 de janeiro de 1857, enviada ao Redator do Jornal caririense :
     "Me é preciso diser lhe que não tinha vistas algumas de occupar as paginas de seu conceituado jornal, e a rasão puderosa e forte para assim o faser é minha fraca e limitada intelligencia; porem, sr. Redactor, chegando me ás mãos uma folha do Pedro 2º cujo numero ignoro (que um meu amigo fes me o especial favor de mandar me) vi um (ilegível) em título de correspondencia sem nenhum estilo, sem encadiamento de ideias, com erros de Retorica, Grammatica, e Orthografia; em fim obra que mostra evidentemente quem seja o seu dono - sendo a sua epigrafe um dos membros da família Favella. Antes pois de entrar na analyse dos factos da correspondencia desse Favella é da mais estreita precisão declarar ao publico sensato quem foi este Favella e quem é a sua decendencia. Esse herói foi um pobre matuto, q' morava no Riacho do Machado, alli vivia lutando com a fome com a miseria, e com a nudez, o Major João Carlos Augusto compadecendo-se delle chamou-o para esta Villa e obteve para elle o lugar de Delegado, o qual não soube desempenhar, porque a sua vida publica foi uma serie de corrupção não interrompida."
     "Pela morte desse Delegado succedeu seu Sobrinho Ildefonso Correia Lima: este matuto não só aqui como na Cidade de Icó serve de espetaculo publico pelos seus continuados desfrutes, é um individuo bastante pobre, e dis que está muito bem, que tem muitos contos de reis, e com toda esta fortuna colossal apenas toma no Icó, a credito, um conto e poucos mil reis. Se elle não tivesse casado com uma filha do Major João Carlos estaria redusido a sua triste condição de 1848 - 1849, que era vender nos sambas garrafinhas de aguardente enfiadas estas na ponta de uma tualha. Chega a tal o estado de sua desmoralisação neste lugar, que um negro desta Villa de nome José Branco contou-o na folha chamando-o mentiroso. É pois a um homem destes que o Governo encarrega de grande puder de prender e processar. Temos mais aqui um membro da família Favella, o qual é Sub-delegado , e muitissimo conhecido pelo Vicente Burundanga, este espoleta tem sido muitas veses sensurado no Cearense e as qualidades que o cercam são a crapula, a devassidão, a corrupção, a trapaça, a manha e a velhacaria. Agora passo a responder os factos da correspondencia desse Favella. Diz elle que nesta Villa tem quatro chimangos sem familia, sem prestigios, e sem fortuna, um deste é o Tenente Coronel José Joaquim da Silva Brasil, cidadão muitissimo respeitável, bem conhecido nesta Província nascido no Icó, e filho legítimo de paes ilustres e que tem prestado relevantes serviços no estado nas commoções políticas, como fosse em 17, 21, e 32, e tem occupado alem disto os empregos mais vantajosos no município em que mora, cujos empregos tem sabido desempenhar com toda honradêz, e dignidade e bastante actividade; o segundo de que trata-se, é o ajudante  José de Sousa Mattos, este benemerito cidadão é muitissimo conhecido nesta província pelos seus precedentes honrosos, dedicou-se a carreira militar, prestou bastantes serviços a Patria e ao Estado. O terceiro é o Vigario collado desta Freguesia Luis Antônio Marques da Silva Guimarães, homem este bastante rico e de uma posição elevada, a sua família é uma das primeiras da província da Parahyba, os seus manos o Vigário José Antônio, e o Dr. Açanã, passão por uma das illustrações daquella província. O quarto que menciona-se que é filho do Rio do Peixe e que é bem conhecido pela sua família do Umary, esta pessoa responde-vos que não o enxerga, e nem o ouve, e que só se lembra deste membro Favella, assim como lembra dos porcos quando os incontra na rua; que para não o imporcalhar da-lhe com os saltos dos botins nas ventas. São estes infelises e manivellas que tem a coragem de quererem menoscabar a reputação de homens que tem sabido adquirir em tempos e epochas em que o espírito da corrupção se tem mais estendido. Não quero ser mais infadonho aos meus leitores e por isto quero findar esta no firme propósito de não dar o menor cavaco a estes desgraçados, o que se agora faço foi em satisfação ao publico, pois acosto-me a maxima do Marquês de Maricá, - quem disputa com a canalha fica a nível  com ella. Tenha pois a bondade de inserir estas linhas que são de seu constante leitor. O Lavrense."
     Enfatizemos o que comenta O Cearense de 4 de abril de 1856 (p. 4), no quadro Notícias da Província, acerca do famigerado Padre Luis Antônio Marques, figura emblemática dessa fase provinciana regional: “O vigário de Lavras o revd. Luis Antônio Marques da Silva Guimarães acaba de ser insultado em sua própria matriz por uma sedição promovida pela autoridades policiais, tirando-lhe a chave da matriz, e passando a outro sacerdote, a quem investirão de jurisdição paroquial” (CALIXTO JÚNIOR, 2012).
     Como visto, eram frequentes as acusações entre divergentes políticos nas edições dos jornais regionais, sobretudo no liberal O Araripe. Para Alves (2010), tornou-se perceptível em vários número de O Araripe que há sempre o cuidado em rebater as ofensas feitas pelos conservadores através da Gazeta do Cariri, bem como o de publicar em seus números, insultos e comentários sobre os artigos publicados pelos adversários. Dessa forma, os jornais haviam se tornado espaços em que os políticos seus projetos, além de acusarem-se mutuamente, expondo naquele meio suas respectivas representações acerca de assuntos variados.



Referências Bibliográficas:
ALVES, Maria Daniele. Desejos de civilização. representações liberais no jornal O Araripe 1855-1864. Dissertação (Mestrado em História e Cultura). Universidade Estadual do Ceará, Fortaleza, 2010.
CALIXTO JÚNIOR, João Tavares. Venda Grande d'Aurora. Expressão Gráfica e Editora, Fortaleza, 2012.
NOBRE, Geraldo. Introdução à História do Jornalismo Cearense. Edições NUDOC. Departamento de História - UFC. Fortaleza, 2006.
       
     
     

sábado, 16 de fevereiro de 2013

O Assassinato de Ernesto Carlos Augusto e a Inocência do Padre Joaquim Machado da Silva (Pe. Gangan).

Por: João Tavares Calixto Júnior.


Ernesto Carlos Augusto


      Aos 23 de janeiro de 1874 ocorreu um dos mais ruidosos casos criminais da história da região Aurora-Lavras. O Padre Joaquim Machado da Silva, vulgo Padre Gangan, Capelão na Venda, foi acusado de cometer assassinato na Vila das Lavras, de onde era natural.
    Sobre o reverendo, nasceu aos 6 de dezembro de 1843, filho de Francisco Machado da Silva e Maria do Ó de Jesus. Ordenou-se aos 3 de novembro de 1872 no Seminário de Olinda, PE. Foi coadjutor em Lavras, Telha (hoje Iguatu) e São Bernardo da Cachoeira (atual Solonópole), bem como Capelão na Povoação da Venda, onde perpassou de janeiro de 1873 a janeiro de 1874, data da ocorrência do crime ao qual foi acusado.
     Registrou-se no Livro de Matrimônios da Paróquia de São Vicente Ferrer (1870-1875, p.143), no dia 14 de janeiro de 1874, o último lançamento de sacramento matrimonial exercido pelo referido sacerdote, ocorrido antes do acontecimento fatídico. Casou no sítio Tabocas a Antônio de Barros Albuquerque e a Josefa Maria da Conceição.


(Último matrimônio realizado pelo Padre Joaquim Machado da Silva enquanto Capelão da Venda. Livro de Registros de Matrimônios da Paróquia de São Vicente Ferrer de Lavras, 1870-1875, p. 143)

     Sobre o episódio referido, foi apontado por matar, a golpe de faca no peito, a Ernesto Carlos Augusto, irmão da lendária matrona de Lavras Fideralina Augusto Lima.
     Consta nos autos do processo, o crime ter sido praticado em virtude de luta corporal travada entre o Pe. Joaquim Machado da Silva, Cosme Francisco de Oliveira Banhos e Ernesto Carlos Augusto. A refrega foi motivada pela existência de namoro entre o Pe. Machado e Raquel, tia materna do dito Cosme Banhos e irmã da esposa de Ernesto Carlos Augusto. Em face do que vinha ocorrendo, os dois insurgiram-se contra o religioso, que terminou sendo processado por crime de homicídio.
     Findada a luta, que resultou na morte de Ernesto provocada por uma facada na parte direita do peito, retornou o Pe. Machado a cavalo à Povoação da Venda, pela estrada velha que ligava a Capital ao Cariri, no leito esquerdo do Salgado. Ao chegar, e já no outro dia (22 de janeiro de 1874), foi ouvido pelo Subdelegado de polícia da Venda, que lhe inquiriu sobre o acontecido. Afirmou o cura, ter ido à Vila das Lavras, de onde era natural e tinha casa, fazer um batizado “a convite”. Sua versão ao oficial esteve atrelada ao fato de ele, estando nas Lavras, em sua casa, das dez para as onze da noite do dia 21, estudando uma homilia, deparou-se com a entrada do dito Cosme pela porta da frente, que ao se admirar por estar ainda ele acordado, proclamou a frase seguinte: “Nunca vi gente rezar como padre”. Após a conversa com Cosme, retirou-se apressadamente ele para o quintal da casa por achar-se com dor de ventre, quando ali, encontrou-se com Ernesto sem camisa, que perguntava por Cosme, e segurava um pedaço de pau. Respondeu-lhe, então, o sacerdote que o esperasse um pouco, a fim de fazer-lhe as necessidades fisiológicas, ao tempo em que afirmava não saber de Cosme, já que tinha saído de sua residência. Ao voltar, deparou-se o Padre com Cosme armado com um pedaço de pau, e descarregou-lhe forte golpe, que o fez cair ao chão e gritar em alto som: “Cosminho, não me mate pelo amor de Deus”. Ao ouvir os gritos de súplica do religioso, socorreu-lhe o vizinho Manoel Soares, e com isto, fez desistir a dupla de prosseguir num ataque fatal. Assegurou ainda o referido Padre ter se lançado ao mato após ter ouvido fortes ameaças de morte impetradas pela dupla.
     Faz-se importante salientar que foi inquirida na Subdelegacia da Venda uma testemunha, a mesma que o recebeu a fim de tratar de seus ferimentos. Era João Francisco Leite, personagem citado não poucas vezes nos livros de termos paroquiais de Lavras e Aurora, matrimoniado três vezes e pai de vinte e quatro filhos. Foi Intendente Municipal, Vereador, Juiz substituto e Inspetor da Instrução pública na Venda e depois na Vila d'Aurora.
     João Francisco, ao ser indagado sobre os ferimentos que recebera o sacerdote acusado, respondeu terem sido realmente graves, e que os tinha presenciado logo assim que chegou o padre aos seus aposentos. Afirmou ainda ter ouvido falar que, no local da enrasca, foi encontrada uma bainha de faca, que ouvira dizer ser de Cosme, e não do Padre Machado, já que nunca o tinha visto armado.
     Sobre as testemunhas ouvidas em Lavras, prestaram depoimento sempre “por ouvi dizer”. Transcreve-se aqui o depoimento de uma dessas: Graciano Coriolano de Sousa: “Diz Graciano Coriolano de Sousa Lima que à noite em sua casa sem lhe aparecer o sono, dirige-se para a casa do Capitão Banhos e achando-se ali em conversa, aparece a mulher de Ernesto Carlos Augusto dizendo ao marido que haviam empurrado a porta de sua casa (de trás) ao que o marido diz que tal não foi, senão os porcos, ao que ela refletiu que não tinham sido porcos, visto que empurraram com tanta força que aluiu o batente da mesma porta, dizendo então Ernesto que talvez fosse alguém que lhe quisesse botar entrudo; quando se dava esta conversa, Cosme Francisco Banhos passeava no terreiro da casa para onde se dirigiu Ernesto e entraram em conversação, sem que ele testemunha a pudesse compreender, saindo ele do lugar onde se achava, foi ter onde se achavam ambos, perguntou se José Raimundo se achava em casa, etc.” “As onze horas da noite, mais ou menos, voltou à casa de José Raimundo e estando ali, observa passar uma pessoa apressada que ele, testemunha, supôs ser alguém que tinha feito algum roubo, e saindo para um dos oitões observa a fala de Antônio Morais. Pergunta o que havia acontecido ao que ele respondeu que tinha sido o Padre Machado que tinha dado uma facada em Ernesto que se achava à morte. Disse mais que, dirigindo-se para a casa do Capitão Banhos, aí encontrou este que estava pegado com seu filho Cosme Francisco Banhos que estava chorando, dizendo que o Padre tinha morto a Ernesto, e ele testemunha procurando saber de Cosme Banhos como se tinha dado este fato, ele narrou-o da maneira seguinte: Disse que era oculto o tal laço de Raquel com o Padre Machado, e nesta noite, desconfiando Ernesto já por alguns pasquins, já porque se achando em casa do referido um oficial de sapateiro e o Padre não consentiu que ele ali se hospedasse, à vista disso Ernesto convida a ele, Cosme Banhos para ir atocaiar o referido Padre e com efeito colocaram-se debaixo de uns pés de ateiras e com mais pouco apareceu o Padre de camisa e ceroula, embrulhado em uma coberta de ganga encarnada com o forro branco, batendo no portão do Padrinho Machado, saindo Ernesto a falar ao Padre, ele corre, e ele Cosme, o acompanha, que o alcançando dá-lhe uma cacetada que o deita por terra e tratou de pegar o Padre, que o pegou pelas goelas com uma mão e com a outra pega na mão do Padre que tinha uma faca; e gritando, digo, e gritou a Ernesto que chegasse que o cabra estava pegado; nisto recebe Cosme uma grande pancada dada por Ernesto, que caiu sem sentidos e quando torna em si, ouve a voz de Ernesto dizer que o cabra o tinha morto; nisto ele, Cosme, gritou: Compadre, pois eu mato o cabra, ao que Ernesto o pega pela cintura dizendo que não fizesse isto, a vista disto não pude perseguir o Padre, chegando também logo seu pai que o pegou, etc.”
     A propósito novamente da referida bainha, informada por João Francisco Leite, na Venda, afirma, em depoimento realizado na Vila de Lavras, o farmacêutico Antônio Francisco de Morais que, dias após o trespasse de Ernesto, Isabel de Tal lhe informara que “o Capitão Antônio Francisco de Oliveira Banhos havia dado dez mil réis a João Mira e igual quantia a outra das testemunhas que depusessem no processo” para que dissessem que conheceram a tal bainha encontrada no local do conflito, e que esta era de uma faca pertencente ao Padre, “recomendando o dito Capitão a essas testemunhas que firmassem seus conhecimentos da dita bainha, dizendo que já haviam cortado capim e cana para cavalos com a faca que ela guardara”.

(Página dos Autos do Processo Criminal do Padre Joaquim Machado da Silva)

     Outro depoente afirmou que Isabel Maria do Espírito Santo o havia informado que, na casa do referido Capitão Antônio Banhos, encontrara uma faca ou punhal ensanguentado. Este, que atendia por Manuel Soares da Cunha, empregado que era do dito Capitão, em presença do Juiz, negou haver feito tal afirmação.
     Notemos como foi feita a queixa, ao Juiz Municipal, pela viúva de Ernesto, Vicência Maria da Conceição:“Persuadido seu infeliz marido Ernesto Carlos Augusto (segundo se dizia e corria no domínio popular) que o queixado, esquecido de seus deveres, calcando aos pés o seu sagrado ministério e cobrindo da pútrida lama da corrupção sua batina, alimentava pretensões criminosas contra a honra da casa do pai da queixosa, pretendendo ele, pelos sentimentos de amor de família, verificar se era verdadeiro o que se dizia. Para isso, tendo chegado do Distrito da Venda, o queixado, no dia 21 de janeiro, findo, concordou e assentou na noite daquele dia seu infeliz marido, com seu primo Cosme Francisco de Oliveira Banhos, colocaram-se ao pé da casa do pai da queixosa, onde se conservou o seu desditoso marido, estando o seu companheiro (Cosme) um pouco distante, até que por volta da meia noite, teve o grande dissabor de ver o dito Padre, que transformado em lobo, batia na porta de trás da casa do pai da queixosa, saindo-lhe então ao encontro, seu infeliz marido, e pondo-lhe a mão sobre o ombro, disse-lhe se ainda duvidava do que se dizia a seu respeito, e o queixado sem lhe responder palavra e a sangue frio deu-lhe uma punhalada sobre o peito direito, etc”.
     Apesar de tudo, até mesmo de o sogro da vítima Antônio José Machado e seu irmão Cassiano José Machado afirmarem, em juízo, a impossibilidade de saber quem, realmente, matou Ernesto, “dada a noite tenebrosa”, o Padre Machado foi detido.
     Em um dos vários depoimentos do Padre Gangan, consta o que segue: “que sendo aquela noite tenebrosa, não se podia distinguir pessoa alguma e na luta, depois de se achar o réu bastante ofendido, Ernesto pensando, empregar no réu, deu em Cosme Banhos uma cacetada que o maltratou bastantemente e, em seguida, depois dos primeiros efeitos dessa cacetada, Cosme Banhos procurando apunhalar o réu, que lhe havia escapado das mãos, deu uma punhalada que empregou a sua satisfação, e nesse ínterim, Ernesto disse: Companheiro, o cabra matou-me; com o que terminou o rumor”.
     Ressalte-se que, a certa altura do Processo, o Juiz escreve serem verossímeis os depoimentos do acusado. Lamenta, entretanto, que ele não seja claro no referente ás causas de sua ida a Lavras, naquele dia.
     Relativo ao assunto, como já foi citado, afirmou o Padre Gangan haver-se deslocado da Venda, para fazer um batizado, a convite. Enquanto isto, conforme foi deposto, Raquel, cunhada de Ernesto, proibida por este de ter relações de amizade com o levita, mandou-lhe um bilhete chamando-o urgentemente. Teria ele respondido que iria “de fato a esta Vila para ver se tinha outro pai”. 
     Realizado o sumário, em que funcionaram como advogados de acusação Dr. Joaquim Pauleta Bastos de Oliveira, Antônio Carlos Augusto, Manuel de Araújo Pinto e Coronel Antônio Joaquim de Sousa Rolim, e de defesa Belisário Cícero Alexandrino e Pe. Teodulfo Franco Pinto Bandeira, o réu foi liberado. Passou, então, o Pe. Gangan a residir na Telha (hoje, Iguatu), exercendo, ali, as funções de Coadjutor.
     Na Telha, segundo um ofício do Delegado de Polícia local, foi o sacerdote preso aos 18 de outubro de 1875. Em 12 de junho de 1876, da cadeia onde se achava, enviou ele petição ao Juiz de Lavras, expressando o seu desejo de que o processo fosse apressado, a fim de “responder logo, visto sofrer prisão há muito tempo”, e solicitando ser julgado em Várzea Alegre ou no Icó, “visto como foi o suplicante, por motivo independente de sua vontade, preterido de responder a três sessões sucessivas de júri de Lavras.”
     Acatada a sua solicitação, transferiu-se o Padre para a Cadeia Pública da Vila de Várzea Alegre, onde já se encontrava em 17 de outubro de 1876.


(Página dos Autos do Processo Criminal do Padre Joaquim Machado da Silva)

     Aos 20 do mesmo mês e ano, naquela localidade, com a presença do Juiz Municipal Dr. Joaquim de Andrade Fortuna Pessoa, servindo de Juiz de Direito, do Promoto Público Interino Manuel Duarte de Oliveira Tércio, dos advogados de defesa Belisário Cícero Alexandrino e o Pe. José Ferreira da Silva, de cinco testemunhas de acusação e de defesa e dos doze juízes de fato, Antônio da Costa Balada, Herculano Gomes Pereira, Francisco das Chagas Bezerra, Antônio Alves do Nascimento, João Alves Bezerra, Vitorino da costa Vilar, Francisco Carlos de Oliveira e Sá, Pedro Vieira da Costa, Joaquim Alves Bezerra, João Antônio da Costa Vieira, Antônio Bezerra de Menezes e Antônio Francisco Pinto de Mendonça, realizou-se o júri, havendo sido absolvido, por unanimidade, o Pe. Joaquim Machado da Silva.
     Em 28 de outubro, o Juiz de Direito interino Joaquim de Andrade Fortuna Pessoa apela da sentença de Várzea Alegre para o Tribunal da Relação em Fortaleza, o qual, em palavras contundentes, manda proceder a novo júri, ordenando, inclusive, que o acusado fosse novamente capturado, o que não aconteceu.
     Somente aos 11 de maio de 1883 o Subdelegado de Polícia da Povoação de São Bernardo da Cachoeira, onde vinha o Padre desempenhando o cargo de Coadjutor, comunicou ao Juiz de Lavras que este se apresentara, uma vez que era “processado por crime de homicídio neste termo com o fim de recolher-se à prisão, a fim de ir responder pelo mesmo crime”. Preso em Cachoeira (atual Solonópole), logo depois foi o Pe. Machado recambiado para Telha, e, em seguida, para Lavras, onde o Juiz Municipal da Vila, Mileno de Torres Bandeira, baixou portaria, ordenando ao carcereiro “que recolha o Padre Joaquim Machado e Silva na sala livre da Cadeia Pública ou em um quarto reservado, separado da prisão comum” (...) “o qual foi remetido preso pelo delegado de Polícia da cidade da Telha para responder o júri neste Termo, onde se acha pronunciado”.
     Aos 29 do mesmo mês de maio, na Vila das Lavas, precisamente na Casa da Câmara Municipal, presentes o Juiz de Direito da Comarca e Presidente do Tribunal do Juri, Dr. Gustavo Gabriel Coelho de Sampaio, o Promotor Público da mesma Comarca, Gregório Taumaturgo da Silva Pereira, os advogados do réu, Celso Ferreira Lima Verde, Belisário Cícero Alexandrino, Pe. Belarmino José de Sousa e Pe. Antônio Fernandes da Silva, bem como os doze jurados sorteados, Vicente Quaresma de Mendonça, Luís Antônio Marques da Silva Guimarães (Pe. Luis do Calabaço), Vicente de Oliveira Campos, Antônio Felipe Benício, João Pessoa de Araújo, Manuel Antônio Leite, João Nunes de Almeida, José Batista de Sousa, João Casimiro Viana, Joaquim Barbosa Gondim, Manuel Duarte Passoa e José de Sousa Reis, procedeu-se à sessão do júri, do qual, mais uma vez, saiu absolvido, por unanimidade, o Pe. Gangan. E o Juiz mandou passar-lhe o Alvará de Soltura.
     Terminava, assim, depois de nove anos e meses do crime, a via-crúcis desse inditoso sacerdote, que pagou por um crime que não cometera. E vem a pelo consignar que a própria viúva da vítima, Ernesto Carlos Augusto pela imprensa da Capital, chegou a proclamar a sua convicção da inocência do Padre.
     O Pe. Joaquim Machado da Silva, absolvido, voltou a residir em Cachoeira, atual Solonópole, onde veio a falecer aos 4 de julho de 1889.
     Sempre se contou, na Venda e arredores, que os sacerdotes que se fizeram presentes ao julgamento do Pe. Machado, ao se retirarem dali, a cavalo, juntamente com ele, pela estrada da Várzea da Benta, que ligava Lavras ao Icó cumpriram literalmente as palavras do Evangelho. Já fora da Vila de Lavras, apearam-se todos e tirando os sapatos, sacudiram, conjuntamente, o pó que neles se continha contra o lugarejo, em sinal de maldição.


Referências:
ARQUIVO PÚBLICO DO ESTADO DO CEARÁ. (Autos do Processo Criminal de Joaquim Machado da Silva (Pe.) 1874-1875),
CALIXTO JÚNIOR, João Tavares. Venda Grande d'Aurora. Expressão Gráfica, Fortaleza 2012. 300p.
MACEDO, Joaryvar. São Vicente das Lavras. IOCE, Fortaleza, 1984. 124p.




quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Padre José Gonçalves Ferreira - Uma Nota Prévia.

Por. João Tavares Calixto Júnior.

Padre José Gonçalves Ferreira (*)

     Há exatamente 109 anos (2 de fevereiro de 1904), assumia como Vigário da Paróquia de São Raimundo de Várzea Alegre, o Padre aurorense José Gonçalves Ferreira. 
     Nasceu no sítio Jitirana aos 28 de março de 1876, batizando-lhe o Pe. Meceno Clodoaldo Linhares na Capela da Venda aos 23 de abril do mesmo ano. Foram seus padrinhos Antônio de Jesus Ferreira e Josepha Maria Leite (Livro de Registro de Batismos da Paróquia de São Vicente Ferrer de Lavras, 1876-1877, p.17). 
     Era o terceiro filho de um total de dez do primeiro casamento de Joaquim Gonçalves Ferreira, ou Joaquim Miguel (filho de Antônio de Jesus Ferreira e Joana Batista de Jesus), com Cordulina Maria Leite (filha de Barnabé Leite Teixeira e Maria Joaquina do Amor Divino) . Era, ainda, irmão de Dom Alberto (José Leão Gonçalves), monge beneditino do Rio de Janeiro, religioso nascido do segundo casamento de seu pai (com Vitória Gonçalves Ferreira).
     Foi aluno da quarta fase do Seminário Episcopal do Crato, recebendo a Ordem do Presbiterato no Seminário da Prainha em Fortaleza aos 30 de novembro de 1902. Foi Vigário em Trairi de 25 de fevereiro de 1903 a janeiro de 1904, de onde saiu aos 3 de janeiro para assumir a Paróquia de São Raimundo Nonato de Várzea Alegre, CE, onde se demorou até a data de seu falecimento (3 de novembro de 1917).
     Foi sepultado no Cemitério de Várzea Alegre, embora seus restos tenham sido transladados ao Cemitério de sua terra natal, depois de ter atentado contra a própria vida, cometendo suicídio por enforcamento, vítima de calúnia perpetrada por dois indivíduos varzealegrenses.



Adaptado de: Venda Grande d'Aurora. CALIXTO JÚNIOR, João Tavares. Expressão Gráfica e Editora. Fortaleza, 2012, 300p.
(*) Foto do Álbum Histórico do Cinquentenário do Seminário Episcopal do Crato (1875-1925)


segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Alguma Coisa sobre o "Bravo Caririense" em Terras d'Aurora-Lavras.

Por: João Tavares Calixto Júnior.


(*) Joaquim Vasques Landim (Quinco Vasques)

      
     Em depoimento realizado aos 13 de julho de 1910 ao Juiz Alfredo de Oliveira, em Lavras, afirmava Joaquim Vasques Landim, o famigerado Quinco Vasques (o Bravo Caririense), terem sido alguns aurorenses, os mandantes da tentativa de deposição ao Coronel Gustavo Augusto Lima, de Lavras, um dos mais importantes régulos do período coronelístico nordestino, filho da matrona Fideralina Augusto Lima. Ocorreu este cerco aos 6 de abril de 1910, com a invasão de cerca de 300 cangaceiros a fim de atear-lhe do poder lavrense.
     Sobre Quinco Vasques, tratava-se de homem de descomunal bravura, natural do sítio Santa Teresa, Missão Velha, e residente, então, na Serra de São Pedro, sítio Bico de Arara, atual município de Caririaçu. Viveu ainda em Aurora, no sítio Tipi, onde foi vaqueiro do casal Marica Macêdo e Cazuzinha, de quem era primo legítimo. Alguns de seus filhos, da união com Maria da Luz de Jesus (Marica), foram nascidos no sítio Tipi, a saber: Antônio Joaquim Vasques Landim, nascido aos 6 de setembro de 1898, e Joanna Vasques Landim, nascida aos 22 de maio de 1900. Justifiquemos:
“Aos cinco de agosto de mil e novecentos, na matriz de Aurora, batizei solenemente a Joanna, nascida aos vinte e dois de maio deste ano, filha legítima de Joaquim Vasques Landim e Maria da Luz de Jesus, naturais de Missão Velha. Foram padrinhos José Antônio de Macêdo e Joanna de Jesus Landim, casados. E para constar mandei fazer este termo que assino. Pe Augusto Barbosa de Menezes” (Livro de Registro de Batismos da Paróquia do Menino Deus de Aurora, 1897-1904, p. 112).
     Do auto de perguntas, informava o réu terem sido Manoel Gonçalves Ferreira, Antônio Leite Teixeira Netto e Davi Saburá, os aurorenses mandantes do assalto ao coronel Gustavo Augusto de Lavras: “Antônio Leite concorreu com um conto de réis em dinheiro que lhe foi entregue por Joaquim Torquato, Manoel Gonçalves Ferreira concorreu com duas cargas de balas de rifles, entregues pelo mesmo Joaquim Torquato e Davi Saburá concorreu com um conto de réis em dinheiro, também entregue por Joaquim Torquato”. Interrogou ainda o magistrado, objetivando inteirar-se quanto ao maior número possível de suspeitos de participação no complô para a derrubada do coronel Gustavo, um dos mandantes do ataque a Aurora em 1908, aos seguintes: coronéis José Francisco Alves Teixeira e Antônio Luis Alves Pequeno, do Crato, o doutor João Augusto Bezerra, clínico de Lavras, assim como o seu irmão, o padre Vicente Augusto Bezerra, vigário em Aurora e o também padre, o aurorense José Gonçalves Ferreira, Vigário em Várzea Alegre.
     Indagado, ainda, Quinco Vasques, sobre a interferência de outros suspeitos no ataque ao coronel Gustavo, acrescenta nos laudos do interrogatório, o que segue: “(...) além desses mandantes o influenciaram mais para este ataque, Joaquim Torquato, José Torquato, Simplício Torquato, os filhos de Antônio Leite, Isaías e João, assim como quase todos os deportados de Aurora (...)”. Sobre o objetivo do ataque, informou: “era depor o coronel Gustavo e tomarem depois conta da cidade, a fim de melhor ser facilitada a retomada de Aurora, da qual seria novamente chefe, Antônio Leite (...)”.
     No entanto, pouco se demorou Quinco Vasques em Lavras após ter sido preso e prestado depoimento. Mal tomaram conhecimento de sua estada ali, mandões caririenses, entre eles, Domingos Furtado e Antônio Santana, providenciaram-lhe a soltura. (MACÊDO, Joaryvar. Um Bravo Caririense. Crato, 1964, p. 58).


Fonte: 
CALIXTO JÚNIOR, João Tavares. Venda Grande d'Aurora. Expressão Gráfica, Fortaleza. 2012. p. 171-173.
MACÊDO, Joaryvar. Um Bravo Caririense. Revista Itaytera, Crato, 1964, p. 58.
(*) Acervo Família Vasques Landim do Cariri.